terça-feira, 12 de maio de 2009

Nostalgia

Nunca soube exatamente como começar um e-mail. Não sei por qual motivo, mas, olá, como vai? e que saudade! irritam-me de forma inexplicável. Uma espécie de protocolo a ser seguido. E, você, mais do que ninguém sabe da minha aversão por qualquer espécie de pré-determinação.
Vi sua irmã na rua a uns dois dias. Ela fez que não me viu, mas tenho certeza que viu sim. O conhecido olhar de ojeriza traiu sua atitude. Nunca vou saber o que fiz a ela pra que me detestasse tanto. Curioso, ela sempre foi tão desengonçadinha! Chamavam-na de patinho feio, lembro bem. Ela chorava de raiva. Eis um motivo pelo qual ela deveria não me odiar: enquanto todos lhe diziam o quão estranha e - ah, maldade! - seca era, eu apostava todas as minhas fichas que, quando mais velha, ela seria a garota mais gostosa das redondezas. Não errei. Quem a esnobou, hoje corre atrás. E, pelo que vi ultimamente, estes alguéns estão se tornando cada vez mais frequentes...

Tou nostálgico ultimamente. Surpreendi-me anteontem folheando as páginas amareladas daquele velho livro escolar e, logo após, o álbum da faculdade. Engraçado, logo eu, tão desapegado do passado! Estes anos me modificaram bastante. Ainda estranho a súbita ausência das espinhas. A barba incomoda, mas é benvinda. O diploma do bacharelado em direito, alcançado com muito esforço devido àquela preguiça que me impedia de me debruçar o quanto eu deveria nos livros gigantes que me recomendavam, pende na parede do novo escritório. Mulheres? Algumas e outras por aí. Umas foi apenas carícias, beijos, sexo, rock ‘n roll e até a próxima, se calhar. Outras chegaram a ter freqüência e com isso, importância. Não muita, devo admitir. Minha dificuldade com namoradas foi algo que permaneceu intacto. Minto. Só piorou com o passar destes anos.

Ainda sinto saudade. Daqueles tempos. De você. Do seu rosto sardento e de como balançava seu cabelo cacheado tão desgrenhado, que modelador nenhum ajeitava. Eu gostava dele, daquele jeito. Sempre gostei. Até hoje procuro em outros cachos a rebeldia dos seus. A esmo. Só você tem o cabelo anarquista.

Outro dia, vi uma garota com o seu sorriso. As mesmas covinhas que expressavam tantas sensações. Mais acentuadas, satisfação. Menos, ironia. E quando elas sumiam, ah, o tempo fechava. A mesma medida que este sorriso era encantador, a ausência dele causava desastres.

Mas até disso eu sinto falta. Convivo com pessoas tão monótonas! Até em finais de semana falam em mercado financeiro, casos difíceis, gravatas. Que saco. Preciso sair daqui, é tudo o que penso nestas horas. Preciso de tanta coisa. De ouvir Ramones e balançar a cabeleira de outrora, mandando o velho do apartamento vizinho à merda. De ir no clube náutico – eu sei, essa desenterrei bonito! – da nossa antiga cidade e lá tirar as garrafas do uísque do meu pai de dentro do casaco. Encher a cara. Voltar pra casa cambaleando e cantando Good times, bad times do Led Zeppelin. Ganhar uma chuverada fria e uma bronca colossal. E no outro fim de semana fazer tudo de novo.

Falta da adolescência, talvez. Acho que tou ficando velho.

Não acreditei quando me contaram que você foi trabalhar na Petrobrás. Minha imaginação não consegue envelhecer a garota das camisetas rasgadas do Che Guevara, dizendo que hay que endurezerse sen perder la ternura. Te via uma socióloga, uma historiadora, o diabo! Esqueci, porém, daquele teu toque de imprevisibilidade, que tinha – e tem, por sinal – o costume de nos surpreender.

Agora são onze da noite, mas meus olhos insistem em ver o ponteiro no doze. Talvez seja. A garrafa vazia do lado é a prova do crime. Não tenho como saber as horas. A muito não sei nada. Um amigo meu disse a uns dias que quem sabe muito, sabe pouco. No contexto, a frase pareceu tão desconexa que ri estrondosamente. Pois é, a risada voltou à minha boca. Terrivelmente amarga.

O garçom acabou de passar por aqui. Tamborilou os dedos com impaciência e disse que a casa vai fechar. Tou fechado a muito tempo. Você também. E-mail torna as coisas tão mais fáceis, não? Acho que não conseguiria ter esta conversa face-a-face. Você, com certeza. Sempre foi mais mulher do que eu poderia ser homem.

Do mesmo modo que não sei começar, também não sei finalizar um e-mail. Esse, muito menos. Não vou mandar beijos porque eles não chegariam a você com a mesma intensidade de que eu gostaria. Apenas tenha a certeza de que, essa noite, sonharei mais uma vez com cabelos-cor-de-fogo e um sorriso perdendo-se no horizonte...

(Assinar é meio retrô. E, de qualquer forma, você reconheceria estas palavras em qualquer lugar do mundo)

8 comentários:

Má. disse...

Uou.
Já desejei receber um e-mail desse tipo, hoje já não sei se seria tão bom assim. ;~
Ainda assim, foi lindo.

;@

Carol disse...

Nossa que legal esse e-mail, amei muito bom!!!
assim como a Má tbm achei lindo de mais. Tbm nã vou mais mandar beijos eles não vao chegar aos destinatarios como eu quero!
Putz eu curto Che Guevara,e falo frases soltas como essa que tu disse!
"hay que endurezerse sen perder la ternura"
flw

vanessa lopes disse...

Ahhh xuxu, nostalgia quando pega, pega e com força...
É sempre muito bom ler o q vc escreve.
bjus

Thaís A. disse...

HAHA, adorei :B
Nunca recebo e-mails :(

Beth Balanço... disse...

Ameei teu blog, cara! :B
Até te add lá no meu pra poder acompanhar sempre.

Bjsmil :*

Camila disse...

entendo bem seu ponto de vistaa!Alguem qe naum gosta de nolstagiiaa, nem eu HUAHUAHU
as coisas podiam mudar,coisas cliches e repetitivas cansam neh hehe

bejoos

Daninha* disse...

Nossa adorei o e-mail.
Olha deixei um selinho pra vc!
Espero que goste!
Bjos

Patrícia disse...

Ainda estou debruçada nos livros pesados de Direito. Ainda visto minhas blusas pretas e mato minha irmã de raiva quando chego de manhã podre a álcool. Fico imaginando como será meu diploma pendurado.