terça-feira, 16 de junho de 2009

Branco

Odeio branco. É cor das roupas daqueles caras que me trouxeram aqui. Todo mundo que vem me visitar, vem de branco. Dizem que vou ficar aqui por pouco tempo. E que tudo dará certo. Sairei daqui novinho em folha e recomeçaremos do zero.

É mentira. Eu sei que é. Consigo ver reticências prolongando cada frase que me dizem, até que a incerteza torne-se visível, consistente. E branca. Da cor da parede desse quarto, que é prisão disfarçada.

Eu já perguntei mais de uma vez porque estou aqui. Quando estava lá fora, só ouvia uns tadinho, não tem consciência de nada, né? Hoje é pior. Eu pergunto e ganho o silêncio como resposta. Que também é branco, por sinal.

Lá fora, as pessoas tinham medo de mim. Velhos conhecidos tiravam as crianças de perto de mim. Pro seu próprio bem, é o que dizem. Preocupação. Branca. Que é medo encolhido. E branco, muito branco.

A palavra que mais evitam usar perto de mim é louco. Hipocresia branca. Se eu sou louco, porque não me chamar assim? Esse eufemismo me deixa irritado. Porque, de alguma forma, ele é branco.

Insegurança, insistência, incerteza, hesitação, ansiedade, hipocresia, eufemismo, preocupação, medo, mentiras, verdades, consciência, inconsciência, loucura, irritação, reticências, branco, branco...

Branco por toda parte. No tudo. No todo. Em mim, na devassidão mundana. Fazer parte deste círculo de gente branca me faz branco. Odeio isso. Porque odeio o que é branco.

Talvez seja louco mesmo. Que importa? Antes louco, apenas. E não branco desse jeito.

14 comentários:

Luly disse...

A melhor crônica que já li aqui.

Cara, seus textos são cruéis! ^^

Dorei! ^^

Crispi. disse...

Talvez loucos sejam eles ;)

Luciano de Sálua disse...

Talvez seja o branco, ou o esquecimento entre uma visita e outra suposta verdade, mas eu me sinto só. E é isso que talvez me enlouqueça, ou me faça ser um pouco mais são, afinal, louco é quem me diz...

Douglas N. disse...

"porque a vida é feita de alegorias"
Alegoria - modo indireto de representar uma coisa ou uma ideia sob a aparência de outra.
a descrição do blog cai como um véu transparente sobre o texto. muito bacana mesmo.

Jú Carvalho disse...

Caraleo Sam...onde vc vai parar assim garota?
Digno de prêmio literário!!!
Aplaudo de pé sua arte.

Num momento de crueldade imaginei a personagem como no filme ensaio sobre a cegueira = onde tudo que eles enxergam é branco sabe??

Henrique Miné disse...

skoaKSOakoskOAKSOaksokSA.

que alma negra a do personagem não?


Beeijos.

Letícia disse...

*---* peerfeeito :)

Ryan disse...

Nossa, posso dizer que fiquei encantado e apaixonado pelo que li?

Eufemismó me faz refletir!

Patrícia disse...

Muuuuuuuito bom! É rock! hehehe
porque eu adoro seus layouts, hein? Me dá metade do poder! hehehe
:*

Andréia disse...

w-o-w! ótimo! ou melhor excelente.. melhor ainda .. perfeito!!!
hehehe

Jaya disse...

Sam,

Adorei, adorei, adorei o texto. Talvez, dos melhores que já li desde que comecei a frequentar aqui.

O branco, que assombra. Que diz tanto. Que diz nada. Fico pensando que talvez dependa puramente de quem enxerga. De quem sente. Por isso, ando com aquarela em mãos.

Beijos, e mais beijos, moça!

Bill Falcão disse...

E o branco, se não me engano, é a mistura de todas as cores. Ou eu tô ficando crazy?
Bjooooo!!!!!

neo-orkuteiro disse...

Pra não passar em branco esta visita, estou comentando. Nada de guerra, venho de bandeira branca. Mas também sou louco varrido (pra baixo dum tapete eu diria de onde se não me desse um branco, agora). Vestiam-se de branco os romanos antes de sairem a pedir votos, e daí vem o nome "candidatus".
Seu personagem é fascinante, com seus devaneios de cor.
Beleza pura este seu post, Sam.

Jéssica V. Amâncio disse...

Ameei!
[apesar de ter me trazido lembranças que eu gostaria de esquecer.]
amei, muito bom... e nada branco.