sábado, 22 de agosto de 2009

Misantropia


A cidade continua caótica, sintoma do presente descontents. A praça, tão cheia de gente, tão vazia de humanidade. Ela, daquele ponto da escadaria da catedral, tinha uma visão panorâmica daquela gente doída.

Havia sorrisos vazios naquelas faces. O corpo estava lá, a alma, nem sabiam. Nos jornais, nos televisores ligados na massificação. Apenas os televisores, vozes ecoadas no espaço, longo, inanimado. Desligado é quem liga naquilo que não entende. E quem entende?

A igreja reabrira há pouco. Alguns vagavam por entre o altar e os bancos, sem saber o motivo de estarem neste lugar. Ainda que o crepúsculo entristecesse as feições dos santos, ela via algo de acolhedor. Gostava deste sentimento de amparo, para si. Não uma dependência; era apenas um conforto. Um vapor frio emanava daqueles que andavam sem rumo na praça. Vapor de ausência.

Ah, os fantasmas. Eles costumavam aparecer menos, sabe? Antes eram durante as crises de consciência. Mas, nesse instante, estavam por toda parte. No rosto cansado daquele senhor de barba tão branca, no sorriso de deboche do mendigo – como se risse da vida que ria constantemente dele. Viu-se no olhar perdido de uma garota que fitava com certo anseio algo que não se via.

Procurou felicidade, mas ela saíra por tempo indeterminado. Faz mal, não. A tristeza sempre fora um consolo maior. Enquanto felicidade, menina, podia fazer jus à sua fama de efêmera e distanciar com um sorriso malicioso. Tristeza é mais companheira; seu cabelo faz cócegas no rosto e ajuda a expor os ferimentos da alma. Ela diz um shh maternal, canta uma canção que só ela, e quem mais vier, conhecem. Abandona apenas quando vê o primeiro raiar do novo dia. Veste-se e foge sem adeus.

Talvez fosse apenas aquele céu cinza-encardido que lhe fizesse estes rodopios avessos à sua misantropia. A garoa salgada descia atrás dos contornos impassíveis. Acostumados. O sol raiaria apenas no dia seguinte. Por hoje, é melhor voltar pra casa.

9 comentários:

Filipe Garcia disse...

Sam,

entendo perfeitamente esses dias em que a solidão nos abraça desde o amanhecer até o momento de deitar. E tudo parece tão pequeno ante aquilo que podemos ser.

Precisamos disso, da tristeza, da solidão. Precisamos, às vezes, do distanciamento desse tumulto humano.

Você escreveu bem. E bonito.

Um beijo.

anne biah disse...

Sam, eu fico cada vez mais passada com o teu talento de escrever.
Parabéns mesmo, adoro ler teus textos.
Ah, vi teu texto do TDB na CH, parabéns!
Beijos.

Jaya disse...

Essa coisa de garoa salgada atrás de contornos impassíveis me disse praticamente o resumo do que tuas palavras trouxeram, Sam.

Teu texto podia até combinar com a não-cor do dia, hoje.

Um beijo, moça.

Agatha disse...

Acho que a solidão só é bem vinda na minha vida agora quando estou rodeada de pessoas que não me permitem viver em paz, e isso agora não acontece mais. O máximo que acontece é eu fugir de pessoas incovenientes. Só e apenas. Agradeço alias.

Erica Ferro disse...

Tão bom passar por aqui, textos sempre tão bem escritos, cheios de verdade e emoção.

O sol sempre há de raiar, mesmo que o céu esteja completamente acinzentado.

:*

Niseloka disse...

sabe o que seu texto tbm descreve, a situação das cidades que vivem o pânico do gripe suína. O medo de ter contato com o outro deixa as ruas desertas....

Henrique Miné disse...

adorei a parte que fala da tristeza.

Ah, mas aqueles cabelos são tão sedosos...


Beeeijos.

Diogo Mingorance disse...

Que texto. Blog maravilhoso. Belas palavras. Parabéns.

Sarah S disse...

Tem dias que essas sensações são boas :)