sábado, 26 de setembro de 2009

Desatino

E quando a realidade que se crê é uma realidade inventada? A menina quis que fosse apenas a frase de algum livro, desses que só tem o meio e um fim que não se vê. Prolonga a dúvida: e o fim da história? Nada adianta querer um fim se não houve um começo. Nesse começo, não adianta procurar um sentido, se ele nunca existiu. Também não adianta fingir um ser, que não foi.

E essa liberdade, de onde veio? As amarras, invisíveis, imaginárias, desfizeram-se no afrouxamento da fantasia. A menina escapou, mas olhou pra trás, num misto de saudade e pena do que (não) foi. Tinha que ser assim? Tinha. Se não fosse, ela saberia depois? Quem sabe do que se saberia!

Sentiu como notícia ruim, que vem mansa e lhe toca de leve nas costas, como um susto amigável. Como se o susto parasse na espinha! Passeia na mente, acelera o coração. Não sabia bem se podia comparar aquilo com um susto, talvez fosse um desatino da vida, que quisera brincar de pique-esconde com o juízo. Ver pra crer ou crer para ver? A cria que se crie, a dona que se dane. Não, também não é pra tanto. Foi eterno enquanto durou, ainda que não tenha existido por completo. Talvez nada exista por completo. Nós vivamos pedaços de uma história escrita em partes, sem saber o final e proseando com o autor, todo prosa.

O autor pode prender a prosa no papel de pão a qualquer momento. E a história é a travessia do Rubicão a todo instante, já que a sorte é lançada a cada parágrafo (re)escrito. O autor é inconstante, cansa-se e envolve-se com seus personagens facilmente. Em páginas, já não sabe mais o que é história e o que é vida. Ou se a vida é a história que não terminou de contar.

Talvez seja melhor dormir de novo. A estória não vai terminar, pelo desgaste do grafite e o desastre de quem grafitou. Foi sonho, interrompido no meio da noite. Na manhã seguinte, nem se sonha que sonhara.

A mudança veio doce, feito sonho bom. No que perdeu, encontrou-se: para nunca mais largar.

18 comentários:

Erica Ferro disse...

"Talvez nada exista por completo. Nós vivamos pedaços de uma história escrita em partes, sem saber o final e proseando com o autor, todo prosa."

Falou tudo aí, ó.
Não me canso de dizer que sou tua fã.
Belas palavras, como sempre.

Beijo, Sam.

Henrique Miné disse...

Belas palavras, como sempre [2]

Mas as coisas são assim mesmo, um dia se endireitam. E se não se endireitarem, quem trata de se acostumar a elas somos nós.

xDD


beeeeijos.

Marcela disse...

Caramba, adorei.

As vezes a gente se perde, não sabe mais em que acreditar, e nem se podemos acreditar.

;**

Bertonie disse...

Ainda bem que teu sangue é quente e forte. Se assim não fosse ele, até hoje estarias tu pensando no porquê.
Mas tanto faz. O que não foi, não é. O que não vai voltar, não vai. E o vento dança...

Bertonie disse...

"Nada adianta querer um fim se não houve um começo. Nesse começo, não adianta procurar um sentido, se ele nunca existiu." Se você me der licença, vou roubar essa frase sua, ok?

Marcelo Mayer disse...

acreditar e perca de tempo. meu cigarro sempre me diz isso

John Rômulo disse...

texto maravilhoso! diz tudo e algo mais


"Talvez seja melhor dormir de novo. A estória não vai terminar, pelo desgaste do grafite e o desastre de quem grafitou. Foi sonho, interrompido no meio da noite. Na manhã seguinte, nem se sonha que sonhara." perfeitooooooooo



vou viver aqui agora rs !

True Love disse...

Muito show seu blog...

Adoreiii to seguindo ...=)

Roo Pereira disse...

Muito bomm! x)
O melhor são as sacadas, as letras no meio... maneiro!
nada como O Teatro Mágico pra tá sempre complementando seus textos. hehehe :)
Belas palavras!
Beijooo

Menina lua disse...

OH seguinte eh...Suas palavras soaram aos meus ouvidos como uma canção, que reflete a vida de todos os viventes desse mundo, aqueles que vivem sempre procurando o complemento perfeito,mas nunca encontrarão pois ele não existe.Ah to seguindo seu blog.mt bom;]

Mell disse...

oi...
eu ja acompanho seu blog há um tempinho...sei q nunca deixei um comentário, mas gostaria de saber se vc me dá autorização para colocar alguns de seus posts num jornal mensal que fazemos na escola...acho que vc escreve muito bem e retrata temas que interessa a todos, continue assim =D

beijos

obs:envie a resposta pro meu email:
melzinha_jully_325@hotmail.com

Jaya disse...

Em meio à desorganização, escrevo em guardanapos. Findo me perdendo mais. Tenho um medo realmente imenso de me encontrar.

Teu texto, Sam, foi confuso dentro de mim. Como um sonho. Uma perturbação. Não sei como tô saindo daqui, agora.

Foi ótimo. Sempre é.

Um beijo.

Agatha disse...

"E quando a realidade que se crê é uma realidade inventada?" +1

E quando se vive uma vida não vivida? Quando você se ilude, não sei se de propósito pra não doer, doer menos. Pra não te massacrar. Há quem goste de sonhar, mas quando seus sonhos são apenas pesadelos é preciso acordar.

O que mais me impessiono é com as minhas interpretações, uma linha de raciocinio feita pelos seus textos. Um desabafo gera outro.

Um beijo.

collectors of emotions disse...

Adorei o blog, os textos mto lindos, *-*

● Ana disse...

Putz que post legal.
Adoreei !

Beijinhoss ;**

as viciadas disse...

Nossa, ando perdida.

Um misto de rock, bossa, e samba.

Preciso de um lugar calmo pra refletir.
Kiss,L.

Tayse Caroline disse...

Se soubessemos o tempo todo do começo e do final da estória, qual seria a graça de vive-la?
O bom das estórias - e da vida também - é nunca saber o que acontece na próxima página, é a falta de orientação, é o suspense, o frio na barriga, pois se não houver isso jamais erraríamos e seríamos perfeitos e perfeição nunca foi o forte dos seres humanos.
Bjs

Nathália Monte ;D disse...

o segundo paragrafo ta incrivel!!

beijO sam ;D