sábado, 9 de outubro de 2010

Azul


Era um menino franzino, de estatura média, cabelos castanhos. Um daqueles milhares que você vai ver uma vez ou outra e esquecer o rosto. Deficiência humana; o comum é monótono, invisível aos olhos desatentos. E de desatenção, ah!, como esse menino sabia.

Tudo naquele garoto cheirava a abandono. A cabeça baixa, escondendo o rosto mirrado dos olhares de pena dos passantes. As mãos pequenas, ágeis, acostumadas com a necessidade. A feição de desesperança, vazia, como um som longínquo. Sentado na escadaria da Sé, nada escapava àqueles pequenos olhos, que de tão escuros nem se distinguia a pupila da íris. Tão profundos quanto escuros – dois túneis infindáveis num rosto desolado pela fome. De tanto serem evitados – olhar para túneis vazios dá certa vertigem – os olhos sem luz do garoto esquadrinhavam o mundo à sua volta.

O empresário apressado falando no celular, O ladrão de carteiras tão rápido quanto os ratos do centro de São Paulo, o ambulante vendendo todo tipo de inutilidade necessária, todos lhe evitavam. Menos aquele menino, do outro lado da rua.

Aquele mesmo menino, de seu tamanho, a mesma cor dos cabelos, as mesmas mãos pequenas. A exceção eram os olhos: grandes, devoradores. E azuis. Irritantemente azuis. Alvos constantes de fotógrafos que têm fixação em registrar a miséria humana. E pior ainda: a cada disparo das lentes, o garoto sorria. Com uma felicidade que contrastava com cada centímetro do papelão em que estava sentado, com o cinza mórbido da calçada. E com a desesperança dele, que há menos de cinco metros de distância dizia-se capaz de ouvir o ronco do estômago do parceiro de pobreza.

Um dia, o menino dos olhos negros não viu o garoto dos olhos azuis.

Procurou no canto onde o companheiro de rua dormia, na igreja, na praça, na ruela. E então o achou.

O ambulante não lhe vendeu produto algum. O ladrão não tinha nada para lhe roubar. O empresário continuava falando no telefone. O papelão estava revirado, com o corpinho magro do garoto. Nos lábios, um sorriso sôfrego, de felicidade póstuma. O sangue da covardia, furiosamente vermelho, no peito infantil.

O menino tentou cobrir seus olhos, mas o azul, enorme e escuro, era aterrador demais para a criança suportar. Tapou seus ouvidos pra que a morte, ainda que muda, não lhe ensurdecesse. Num último lampejo de lucidez tentou afogar o grito esganiçado que teimava em sair de sua garganta. Inútil. Havia vozes demais dentro de si para conter.

De repente, aconteceu. Os rostos cotidianos, ocupando os túneis escuros no rosto do menino. As risadas, tropeços, guarda-chuvas virados na ventania, o carro molhando um passante. O ônibus lotado de rostos apáticos. E os olhos azuis, enormes, lhe comendo as carnes.

Aquele menino dos olhos negros fora visto apenas mais uma vez após este dia. Andava de um lado para o outro, velando o papelão, já sem o outro garoto. Mantinha a cabeça baixa, evitando os olhares de compaixão, a mesma que sempre recusaria. Ao ser abordado por um religioso, fugiu; já distante, com pouco fôlego, riu a gargalhada louca de quem o faz com gosto. Será que Deus o estaria vendo agora?

Seus olhos ainda eram túneis, mas luz tímida projetava-se em meio ao breu.

Os túneis no rosto do garoto estavam azuis.

3 comentários:

Renan Mendes disse...

Égua da felicidade em ler um texto novo teu. Não perdeste o jeito pra coisa. :)

Bruna disse...

que texto lindo! adoro a sua maneira de escrever.
não tem nem o que comentar. Com certeza você tem muito jeito pra coisa! OISOSIDOSIOD
beijos.

Eu, a Vanessa Marques disse...

´de fato
belíssimo texto

adorei le-lô

bom, até logo

http://qrolecionar.blogspot.com