sábado, 9 de abril de 2011

Noite dos mascarados

Te vi ali, no meio da ladeira, toda enfeitada de festa. Fitas coloridas no cabelo-de-vento, pés ligeiros no compasso do frevo, sorriso de loslaio e olhos de quem senterespiraevive assim, tudo de uma vez, sem conceituar felicidade.

Foi você que me disse que havia mais samba na tristeza, na calçada - foi esta mão delgada, picada de corda de violão, que me puxou do bar e disse que ia me mostrar a Olinda que ia além do cigarro e da cachaça artesanal.

Num instante, eu estava no meio da multidão. Gentes de todas as cores, sons, cheiros. Cheios. Teu olhar cigano, me convidando a te seguir no meio da batucada. Meu coração palpitando no ronco da cuíca, meus pés batendo ao som das alfaias. E você ali, rindo dum paulistano ressabiado que carnavalizava pela primeira vez na vida.

"O embaraço alheio é tão engraçado assim?"

"Num é nada, moço. Acho divertido ver gente aprendendo que existir não é a mesma coisa de viver. Engraçado é quando eles demoram demais e alguém tem que ensinar."

(Já desconfiei que você fosse minha consciência, sabe? Dizendo, vai, rapaz! ser gauche na vida. Impossível, eu sei. Naquela noite, não existia tempo - éramos dois sem-rumo, uma foliã e um turista impulsivo, que precisava fugir do cinza dos seus dias)

Ao fim da madrugada, sentados no meio fio, ela brincava com os confetes nos paralelepípedos. O silêncio dizia pelos dois. (Cumprira sua tarefa - transmitir um sentimento sem palavras é a forma mais genuína de se comunicar).

De súbito, levantou-se. Meus olhos punham a acompanhar as pregas da saia, amassadas da folia. Ela disse que voltaria pro seu Capibaribe. Tu não sente falta da garoa? Não sinto. Tu não gosta de voltar pra casa? Não sozinho. Tu quer que eu vá contigo? Você não iria. Que te garante? O efeito da cachaça e da boemia. A gente promete mais do que pode cumprir.

Um mês se passou desde então. Tou aqui, de terno e gravata, sendo atropelado por robôs de carbono na rua. Mecânico, como a vida que voltei a levar. Apenas a existência vazia dos dias cinzas.

Minhas cores ficaram naquele carnaval. Ó, linda, que me deu e tirou a vida na mesma noite! Que ensinou esse par de pernas desajeitadas a dançar Maracatu.

"A gente precisa se mascarar quando quer fugir do Tempo e desses dias vazios. Se nos vestirmos de outrem, Ele não nos reconhece e nos deixa viver em paz. Eu me visto de alegria no carnaval, de ressaca na Quarta-feira de cinzas e de contra, no resto do ano. O Tempo é teimoso: me persegue, corre até ficar arfante. Mal sabe ele que minha valentia é maior."

Esqueci minha máscara naquele Carnaval, voltei a trajar essa armadura apática. Pelo menos anotei o nome do bar onde bebi aquela cachaça desgraçada. Talvez ela saiba onde escondo minha fantasia de vida.

Talvez ela me ajude a encontrar o Eu perdido naquelas ladeiras.

8 comentários:

Máry Araújo disse...

eita Olinda singular...
onde mais se encontra isso hein!?
[Cultura TDB .. hehe > adooro!

Laís Pâmela disse...

Olinda lugar de inspiração, de pura poesia, um lugar que não é singular, é um lugar muuuuuuito plural, de pluralidade cultural, de pluralidade poética.
Lindo lugar.
Adorei.
Beijos.

girafas disse...

sempre me acho nos seus textos. (:

#Eric Silva# disse...

ROCK!

É engraçado mesmo ver as pessoas vivendo e não existindo e talvez nem saibam disso, ainda bem que temos pessoas que possa ajudar nisso.

Essa é a graça do viver, porque ele pode despertar de diversas formas ou ficar calado para sempre, vejo que depende muito da vontade das pessoas.

É a foliã e o turista trocando de papéis e se identificando quando o silêncio grita, aquele silêncio que não incomoda, aquele especial e confortante ocasionado por poucos.

Por essa valentia a superação do viver sobre o tempo é possível.

Talvez seja essa a fórmula de se sentir vivo, é querer realmente viver.

Talvez seja por isso, que alguns e poucos Nós dão certo, assim como o Nosso!

Rodrigo Nazca disse...

Estou te seguindo agora. Mas provavelmente você nem vai notar dentre os seus 472 seguidores...

: P

Rodrigo Nazca disse...

É indie...

Não se trata de olinda, poderia ser em qualquer lugar... o cenário para o sonho é como a forma do céu, é variado, multifacetado...

O memomento crucial daquela transformação que se apega ao pensamento, que fica como uma pulga querendo que nos transformemos na vida tanto quanto aconteceu no pensamento, pode acontecer em qualquer lugar... Olinda é apenas o charme estético e cultural...

E se fosse no elevador de casa?
Na rua? Na fila do banco? N´um rolé qualquer...

É porque às vezes não estamos ligados na existência o suficientes para nos deixar levar... ou então determinado lugar nos faz procurar por qualquer mudança... nos lembra nossa tristeza e insignificância... E essa (des)procura acaba encontrando...

...

Belo texto...

Nasaneeds. disse...

Cê sabe que sou cheia dessas impressões de que sou eu mesma só nas festas deste Brasil com aquela pessoa especial. O cotidiano estraga as pessoas.

Mulher Vitrola disse...

Que lindo texto... fiquei querendo me transportar! Adorei =)