sábado, 7 de maio de 2011

Sala de observação

- Bom dia!

Invasiva, a enfermeira adentrava o cômodo pequeno. Os senhores despertavam em sobressalto - pudera, quem consegue dormir com um jorro de luz direto nos olhos? Mesmo acordados, a respiração de alguns permanecia forte e compassada. Todos sabiam o motivo. As paredes do quarto dos doentes conheciam aquela atmosfera da angústia pela morte próxima, da sinfonia das respirações reticentes.

José apenas esperava o oxigênio sumir de seus pulmões. "A pior parte", pensava. Admirava acaso, gostava do de repente e das incertezas tantas da vida. Mas incerteza de morte é diferente. É angústia em plena forma. Ao menos, ali, estava acompanhado por uma legião de homens igualmente angustiados. O sofrimento diminui se há quem sofra junto.

Porém, havia uma exceção à atmosfera pessimista. Osvaldo, o doente mais antigo do quarto, sempre fora o mais otimista. A cada visita que recebia, abria seu sorriso banguela e se punha a contar histórias dos lá dos pampas, dum tempo que não voltaria mais.

- Não te entendo, velho. Tu sabes que tá pra morrer. Como tu consegues estar tão feliz?

- Eu tenho consciência do passageiro, José. Eu sei que em algum tempo - que não sei qual é - não verei os olhos das netas, não sentirei o abraço dos meus filhos. Não quero me privar disso, sabe? Se a morte quiser se achegar, ela que venha! Só quero gozar da minha vida o quanto posso.

- Tu tás machucando a ti mesmo desse jeito. Sabes não que vai ser muito mais difícil se despedir de quem tu gosta?

- Não creio, amigo. Não carece de despedir não. O que a gente passou junto, fica. As casas de boneca, as balas da mercearia, as cantigas de roda. Isso não apaga assim, sabe? Eu tive um projeto de vida: me empenhei bastante em grudar na cabeça das pessoas, de ficar lá e não sair mais. Precisa mais do que morte pra apagar lembranças.

"Besteira", pensava José. Aquele pobre diabo enterraria um por um daquela sala, e ficaria ali, matutando a vida. Ia tomar um chá de cadeira daqueles, ainda. E se arrependeria por não se despedir. Quem é que sabe o que há dali em diante?

- Ser inesquecível é uma dádiva, Osvaldo. Eu resolvi preservar a sanidade que me resta. Não quero pensar em nada. Pensar nessas horas é puro sadismo. Osvaldo?

Não respondeu.

- Osvaldo, tu tás de gozação comigo?

Silêncio. José cutucou o amigo.

- Valha-me, Deus!

Assustada com o grito, apareceu a enfermeira. Sem pulso. Chama o médico. Sobram mangueiras, desfribiladores, aflição condensada na pequena sala. Os doentes preferem não ver a cena. "Osvaldo era compadre, mas a gente sabia que iria logo. Não havia o que fazer", era o que diziam.

Os médicos desistiram. O coração de Osvaldo, cansado de tanto viver, resolvera descansar por fim. Assim, sem maiores alardes, do jeito que ele queria. Os olhos fecharam-se naturalmente, como se estivessem ensaiados praquele momento.

Preso num sonho eterno, Osvaldo sorria o riso de quem sabe o final de uma história que ninguém conhece.

6 comentários:

Ana Laura ;* disse...

Olá seu blog é mto lindo, parabéns *-*
segue e comenta lá o meu se gostar ? www.likesosweet.com

Maria Alice disse...

Olá!!!Voltei a ler teu blog...Talento...É isso o que sinto quando te leio...
Não é só a estória..è o modo que escreve,as palavras que usa,a magia de brincar com as palavras que outros não usariam, é isso o que me fascina!!!Parabéns!Como sempre, muito bom!!!

Larah disse...

Ah, o texto melhorou meu dia. é bom encarar a morte como coisa natural, e nada de sofrimento exagerado, mesmo que seja em conjunto.
Parabéns pelo blog.

Ana C Per disse...

Há quem diga que os imortais são aqueles que nunca sairão das nossas memórias. Seremos um dia imortais?
Lindo blog!

Laryssa disse...

Osvaldo foi um homem sábio, enxergou o melhor caminho para seguir que também é aquele que poucos seguem. A morte deve ser mesmo encarada dessa forma. Para que tanto sofrimento? Para que querer negar que você não irá morrer? Para que querer lutar contra a morte? Um dia ela te encontra, sabemos disso, aceite isso. Se tiveres uma boa vida que contenha um bom coração e boas ações, terá uma boa morte e não deveis temer, penso eu.
Belo texto.

Marion Athayde disse...

Soneto Inteiro*

Obra
Prima
Pobre
Sina

Nobre
China
Podre
Rima

Giramundo
Dia
Vão

Moribundo
Ano
Cão

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* O poema foi escrito no dia 04/06/1989 - data dos protestos da Praça da Paz Celestial, na china. Na época, eu havia acabado de sair do hospital, onde sofrera uma cirúgia delicadíssima na primeira vértebra cervical e, não podia suspeitar, embora intuísse, que ficaria acamada por mais de um ano. Na verdade, o que quero dizer é que somos passageiros dessa nave louca e que "As pedras, elas sim,
continuarão existindo, perenes,
sólidas, solitárias, até o fim dos tempos".