segunda-feira, 23 de julho de 2012

Do sentir

"Até pouco tempo atrás, eu achava que ser era fácil, que já nascíamos semente do que éramos e do que viríamos a ser. Que engano! Cada um é vários e todos os vários são muitos. Todos somos uma colcha de retalhos de eus encaixados que formam cada um. Nas individualidades construídas, cada qual à sua maneira, nos conhecemos e conhecemos outrem. E quantas são as combinações possíveis! Dá pra ser astronauta, bailarina, bicho, criança, pedra... Cara, a gente pode ser o que quiser....! É aí que reside toda a inconstância e todo o encantamento do ser e de ser humano.

Não lembro como caí naquele nó de gente. Depois de uns segundos de náusea, recobrei a consciência e me dei conta: ninguém era alguém ali. Todos éramos nada, todos éramos tudo! Não havia gênero, órgão sexual, suspiro e expressão que nos tirasse a serenidade: éramos maiores que aquilo! Falávamos dos nossos sentires como se fosse um truque e um mágico estivesse tirando-os como lenços de dentro de nossas entranhas. Chorávamos sem constrangimentos, vomitávamos a nós mesmos, nos criávamos personagens, sujávamos e limpávamos a sala. Tudo na primeira pessoa do plural. Não há Eu, não há Você. Somos todos,  somos o mundo, somos animais sem nome-idade-cpf-carteira-de-trabalho. Somos livres nos limites de nossos seres, o tempo é uma mentira, o espaço é relativo! Eu sou o meu deus e Deus ri da minha ingenuidade. Eu posso abraçar o mundo, posso colocá-lo entre as minhas pernas, posso rir do grande amor.   Estou louco no auge da minha lucidez!

Mas agora acabou...

Fechamos os olhos, deitamos no chão. Fechei. Deitei. Quando eu acordei, estava sozinho. Pequeno e vulnerável diante da imensidão que antes me tomara. Meu corpo jamais parecera tão insólito, meu gosto era insípido. Eu voltara ao meu estado natural de ser existente com a minha ficha de identificação pendurada no pescoço, minhas oito horas de trabalho por dia. Aquela multidão se tornou vários ninguéns, que eu já não mais dispensava atenção ou ânimo. O que acontecera comigo? Onde eu estive? Quem eu fui e no que eu me tornei? 

Não importa mais. De tanto viver, eu escolhi não saber. Agora eu só quero o sentir."


[Protocolo do teatro -  não faço ideia da data]

2 comentários:

João Esteves disse...

Belo voo filosófico, Sam.
Acompanhei com prazer, em dúvida de se estava ou não entendendo tudo. Agora não há mais dúvida nenhuma: não estava, e nem poderia estar. deliberadamente, resolvi não entender. De tanto viver. Preferi sentir. Como você. E foi bom.

Marie Motta disse...

Li e entendi, reli e vi uma nova forma de olhar. Fiquei com medo de ler uma terceira vez, mas comecei e acabei me perdendo. O feeling me diz que era isso mesmo que você queria passar.
Beijos