sexta-feira, 27 de maio de 2011

Paranoid android

É tanta gente que beira ao desespero. Quando o sinal abre e aquela multidão desatenta inunda a faixa de pedestres, parece um exército furioso, arrasado o que estiver a vista - com movimentos tão mecânicos quanto os dos carros que estão parados, espreitando silenciosamente a batalha entre os soldados imaginários.

Ele está apressado, como sempre. Anda batendo os ombros nos transeuntes - suas relações ocorriam aos encontrões. Pressa. Tão urgente quanto as sirenes da ambulância que tenta passar em meio aos carros enfileirados no sinal fechado.

Desconhecidos eram os rostos na rua. Inexpressivos, cheios da apatia do cotidiano. Seu rosto seria igual à tantos mil como aqueles? Tinha a impressão de ser examinado pelos olhares vizinhos. Sensação efêmera, ainda bem. Os olhos fixavam nos seus e decepcionavam-se com o nada, consistente naquele vazio voluntário. Ser cobaia, era só o que faltava.
(Monologar o incomodava. Dava a impressão de que ele pensava demais. Falar pouco, escutar muito: dizem que esta é a chave para ser feliz. Faltava saber o que acontecia com quem falava pra si mesmo, escutando-se num eco prolongado)

- Quem é mais feliz: o sábio, que tem consciência do mundo, ou o alienado, que escolhe não saber?

Silêncio.

Tinha medo de ficar louco. Uma vez lhe disseram que pensar muito faz mal - a gente corre o risco de questionar demais, ficar confuso. E todo mundo quer tomar um partido, a tudo nos é exigido posição. Ele não gostava de ter opinião formada, levantar bandeiras, rótulos e esteriótipos. Estava bem com as conversas monossilábicas de todos os dias.

De não pensar, aos poucos, deixou de sentir. Nada lhe prendia a atenção. Seu ser humano desbotava. Noutro dia, cutucara as costas e sentiu um prego. Ora, bobagem. Uma hora ou outra, a pele tornou-se dura. A feição apática estabilizou. Era um mais ou menos a olhos vistos.

Vi-o esta semana, atravessando a Paulista. Marchava ritmado, ensaiado pra um musical que jamais aconteceria. Percebia o mundo através dos olhos semi-abertos, quase enferrujados pela falta de uso.

(O rapaz apressado tornara-se andróide)

6 comentários:

Gabriela Freitas disse...

otimo texto

Pedro Ricelly disse...

belo texto

Marion Athayde disse...

O carro e suas memórias

Interrogativo
Vinha um carro na rua.

Vendo a grandiosidade do vermelho
Parou, brincou, conversou e gargalhou.

Exclamou para o amarelo,
Disse consigo mesmo: Alerta!

Entusiasmado,
Sorriu do verde e seguiu em frente.

Laís disse...

Rock :D
hahaha

o dia que você fizer um texto ruim você me avisa pra eu ler ta?

bjos

ઇઉ Nárgela Bueno ઇઉ disse...

florzinha amei aqui tah de parabens

vou seguir bjks

Diana Moreira disse...

Acho que porque estava escutando uma música triste ao mesmo tempo que li, fiquei emocionada.