terça-feira, 10 de março de 2009

Voar

Ajeitava com dificuldade as escassas malas, dos poucos pertences que possuia. Havia a necessidade de ir, a mais tempo do que poderia lembrar. Não contava, contudo, a dificuldade que o peso desta decisão lhe acarretaria.

Abaixou-se e pegou um punhado daquela terra palmeirinha que cercava o ambiente. Podia sentir dentro de si; Areia que formava sangue, carne, coração. Terra que o formava.

Coração-de-areia esse que sempre estaria naquelas palmeiras onde talvez tivesse cantado um dia o sabiá de Gonçalves Dias. Sentia na fome, na miséria, na ânsia de sair daquele recanto perdido no mundo. Estava para sair de uma bolha que o privava de conhecer, sentir, viver.

Sentiu o estômago roncar. Ausência de alimento. Mas maior que o ronco estomacal, era o ronco mental. Sua fome era mais do que simplesmente suprida por refeição; Era fome de mundo.

Cansado estava de ser prisioneiro em uma gaiola de portas abertas, de seus temores e dúvidas. Talvez se concedesse uma condicional, na fase libertina em que se encontrava. Cansara-se de subjuntivos. Estaria agora nas suas certezas.

Um pio longo e saudosista fora ouvido no alto dos céus. A graúna já voara da palmeira. Agora, chegara a sua vez.

6 comentários:

Nathália Monte ;D disse...

fome de mundoo q liindo!!
beijO

Má. disse...

Ahh.. quando essa fome começa a aparecer, nada mais justo do que correr mundo a fora para saciá-la

;***

neo-orkuteiro disse...

Gostei muito, Sam. Seu miniconto (ou algum outro nome que você prefira) sugere-me interessante metáfora antropoornitológica, com direito a literatura, na alusão ao grande poeta romântico e maranhense que morreu em 1864, gramática no enfado com subjuntivos e tudo mais. Estou de apetite satisfeito.

Ryan disse...

Tenho fome de tantas coisas ainda!


Beijoo

Lily disse...

Somos duas famintas, então!

Tiffany disse...

fome de muitas coisas, não apenas de comida, é o que eu sempre digo.

belo texto.